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Cannabis – O outro lado da história
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Cannabis – O outro lado da história

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Página Inicial Saúde Cannabis – O outro lado da história

Cannabis, ou Cânhamo, é uma palavra automaticamente associada a droga, marginalidade, vício e crime. O preconceito social acerca desta matéria está de tal forma enraizado que, quando se fala de cannabis para fins medicinais, toda a gente desconfia…

Existem evidências do consumo de cannabis desde o terceiro milénio a.C.. É atualmente a droga mais amplamente traficada e consumida em todo o mundo, sendo o seu uso principalmente para fins recreativos, medicinais e religiosos.[1]

 

Prejudicial ou Benéfica?

Nos meios científico, político e social existe uma discussão interminável acerca desta substância. Considerada uma droga perigosa por uns, um medicamento por outros e um prazer inofensivo por alguns, esta droga consegue deixar muito pouca gente sem opinião.

É fácil encontrar argumentos científicos em ambos os sentidos. Também do ponto de vista social a argumentação pode ser utilizada tanto a favor como contra. Certo é que em termos políticos, a droga já foi mais criminalizada, estando a assistir-se nos últimos anos a uma sucessiva descriminalização na Europa e América [1]. Como resultado, temos hoje um mapa bem colorido onde a criminalização desta substância varia com a simples passagem de uma fronteira, prova bem visível que este assunto é acima de tudo uma questão política.

 

Ilustração dos países e da sua postura perante o consumo de Cannabis.

Ilustração dos países e da sua postura perante o consumo de Cannabis.

 

Para o senso comum, a palavra “droga” possui um sentido pejorativo muito forte. Associa imediatamente uma série de ideias negativas e ativa todas as nossas defesas. Contudo, esquecemo-nos que qualquer medicamente vendido na farmácia é também uma “droga”. Além disso, o álcool e o tabaco são também drogas. A diferença de conceitos que associamos entre a “droga cannabis” e, por exemplo, a “droga álcool”, está apenas nos preconceitos implantados em nós pela sociedade. A primeira delas é ilegal e a outra – em Portugal – é perfeitamente legal.

The Lancet, uma das mais importantes publicações científicas na área da medicina[2], produziu um relatório onde compara a dependência e os danos físicos provocados pelas drogas mais populares na nossa sociedade ocidental. O resultado é o gráfico da imagem seguinte:

 

Comparação dos danos físicos e da dependência em relação a várias drogas (feita pela revista médica britânica The Lancet).

Comparação dos danos físicos e da dependência em relação a várias drogas (feita pela revista médica britânica The Lancet).

 

 

De acordo com este gráfico, as drogas analisadas são agrupadas em 3 escalões principais por nível de severidade (amarelo, laranja e vermelho). A grande surpresa é o facto da cannabis ser apontada como menos criadora de dependência e menos prejudicial para a saúde que o tabaco e o álcool.

Heroína e Cocaína estão num campeonato completamente diferente, sendo de facto as piores drogas de entre as mais populares da nossa sociedade.

A ciência parece mostrar que a proibição deveria antes ser exercida sobre tabaco e álcool e não sobre cannabis… mas nem tudo é ciência.

 

Quais os Efeitos da Cannabis?

O principal constituinte psicoativo desta planta é o tetraidrocanabinol (THC). Os efeitos do THC devem-se sobretudo à sua ligação a receptores canabinóides, presentes em muitas áreas do cérebro. Estes receptores têm importância em diversos processos fisiológicos, tais como regulação do metabolismo, dor, ansiedade, crescimento ósseo e função imunitária. A eliminação total da substância no organismo pode demorar até 30 dias. [5]

Devido às suas propriedades, os canabinóides podem ser potencialmente usados com vista à analgesia, relaxamento muscular, imunossupressão, como anti-inflamatórios, antialérgicos, sedativos, para melhorar o humor, como estimulante do apetite, antiemético, diminuidores da pressão intra-ocular, broncodilatação, neuroproteção e efeitos antineoplásicos. Verificou-se que agonistas canabinóides inibem a proliferação celular no cancro da mama e apresentam actividade antineoplásica em gliomas malignos em ratos. A acção do THC no tratamento da asma e do glaucoma está praticamente confirmada. [5]

A toxicidade do THC é muito baixa. A dose letal em humanos não é conhecida nem há relatos comprovados de morte em seres humanos por Cannabis. A gravidade, duração e frequência dos sintomas variam com a susceptibilidade do indivíduo, com meio cultural em que este se insere e com a frequência e intensidade do consumo prévio de Cannabis. No cérebro, o consumo de Cannabis pode desencadear efeitos adversos psicóticos, cognitivos e no controlo psicomotor.

Verificam-se mais efeitos tóxicos na saúde mental dos adolescentes do que em adultos: maior risco de depressões,
síndrome de “desmotivação”, caracterizado por apatia, retraimento social e dificuldades de concentração, o que implica consequências na performance académica. [5]

 

A Criminalização

A história da proibição da canabis é um assunto mundial, que teve a sua origem em vários países no início do sec. XX.[1].

Algumas das razões apontadas para a proibição da planta de cannabis (mesmo das variantes sem substâncias psicoativas), foram questões meramente económicas. Com a invenção de uma máquina chamada “decorticador”, o cânhamo tornou-se um substituto muito barato para a polpa de celulose que era usada pela indústria de jornais. Esta mudança colocava em perigo toda uma indústria de cultivo e transformação de madeira[1] nos Estados Unidos, pelo que os interesses instalados trataram de proibir a produção desta planta.

Mellon, o então Secretário do Tesouro dos Estados Unidos e o homem mais rico do país naquela época, tinha investido enormes quantias na nova fibra sintética da DuPont, o nylon, e acreditava que a substituição do seu recurso tradicional, o cânhamo, era essencial para o sucesso do novo produto. [1]

Antes da invenção do nylon e antes desta planta ameaçar a indústria da celulose, a cannabis não era um assunto de saúde pública. Este é portanto um exemplo claro de uma lei criada não para o benefício da sociedade, mas para acomodar as necessidades dos lobby’s que controlam o poder.

Infelizmente isto não foi algo que “aconteceu há muitos anos na América…”, isto acontece aqui e agora! Continuamos a viver este tipo de situações atualmente, sendo o álcool um exemplo descarado de que a saúde pública não é a primeira prioridade do governo.[3]

Uma das principais consequências da criminalização desta planta, e consequentemente da sua comercialização fora da lei, é o facto de não existir qualquer controlo na sua produção, sendo cada vez mais comuns quantidades exageradas de pesticidas e herbicidas que no final são muito mais prejudiciais que todas as restantes substâncias presentes na cannabis.

Assistimos nos últimos anos a uma tendência para a descriminalização desta planta, com as vantagens de passar a ter uma produção controlada e de gerar receitas de impostos, como o caso do estado do Colorado, onde esta substância possui uma legislação semelhante ao álcool: o consumo recreativo é permitido a partir dos 21 anos, sendo proibida a condução de automóveis sob a sua influência. [6]

 

Cannabis Não é Toda Igual

A potência da cannabis mede-se pela quantidade de THC presente. Os três principais tipos de produtos derivados da cannabis são a erva (5% TCH), o haxixe (20%THC) e o óleo (óleo de haxixe – 60% THC)[1]. Existem também 3 variedades principais da planta: sativa, indica e ruderalis.

Os efeitos da sativa são bastante conhecidos por serem estimulantes, portanto essa variante é mais utilizada durante o dia como medicamento, enquanto os efeitos da indica são conhecidos por seus resultados sedativos e, portanto, ela é utilizada preferencialmente durante a noite para tratamentos medicinais.

Agricultores e criadores de cannabis frequentemente afirmam que os avanços na produção e nas técnicas de cultivo aumentaram a potência dos efeitos da planta desde os anos 1960 e início dos anos 1970, altura em que o THC foi descoberto e compreendido. [1]

 

O Medo de Pessoas Diferentes

A sociedade tem fobia de tudo o que se desvia da norma. Pessoas diferentes, pensamentos diferentes, casas diferentes, formas de estar diferentes – todas elas provocam desconforto na sociedade, mesmo que não interfiram com nada nem com ninguém à sua volta.

A cannabis é uma droga psicoativa[4] que provoca estados alterados de consciência, permitindo – se usada devidamente e no contexto correto – uma expansão do nível de consciência individual. Pelo contrário, drogas como o álcool, produzem estados alterados de consciência no sentido oposto: redução de nível de consciência e perda de raciocínio.

Uma população que sistematicamente se embriaga com álcool e que é totalmente dependente do tabaco é algo a que a sociedade está habituada, coopera e até incentiva. Afinal, este é o comportamento típico dos indivíduos bem comportados, limitados no seu raciocínio e devidamente enquadrados no consumismo e escravidão.

Um conjunto de pessoas que ousa alterar e expandir a sua consciência, o que lhe permite uma visão holográfica da realidade, será uma população que colocará em causa o sentido do consumismo, que se recusará a ser escrava e a alimentar a máquina social viciada. Estas serão pessoas perigosas que a sociedade precisa suprimir.

A cannabis faz justamente isso: permite uma visão diferente da realidade. Não é por acaso que uma boa parte dos indivíduos mais criativos, com mais sucesso em todas as áreas onde “pensar diferente” é imperativo, afirmam sem rodeios ser ajudados pela cannabis.

 

A “Porta de Entrada”

Um dos grandes argumentos dos defensores da proibição da cannabis é o chamado fenómeno da “Porta de Entrada”. Como podemos ver na imagem acima, drogas como cannabis são muito mais inofensivas que heroína e cocaína – são patamares de dependência e dano físico completamente distintos.

“Desde a década de 1950, as políticas de drogas nos Estados Unidos têm sido guiadas pela suposição de que experimentar cannabis aumenta a probabilidade de que os utilizadores acabarão por usar drogas mais “pesadas”. Esta hipótese tem sido um dos pilares centrais da política de drogas anti-cannabis nos Estados Unidos, embora a validade e as implicações desta hipótese sejam muito debatidas. Estudos têm demonstrado que o tabagismo é um preditor maior para o uso de drogas ilícitas pesadas do que fumar cannabis.”[1]

Na minha opinião o fenómeno da “Porta de Entrada” é real. Este é um caso em que “O fruto proibido é o mais apetecido”.

Um jovem é informado pelos mais diversos meios de que as drogas matam, viciam e destroem a vida… tipicamente as fontes de informação dão muita pouca importância à diferença entre as várias drogas. Este jovem cria na sua mente o conceito genérico de “droga” que equivale a tudo o que é mau, vicia e prejudica a saúde.

Contudo, mais cedo ou mais tarde esse adolescente vai encarar a realidade. Os seus amigos irão apresentar-lhe uma “droga” inofensiva que não provoca os danos nem a dependência que lhe foram incutidos. O contacto com a cannabis para este jovem será uma revelação: as drogas não são o que o fizeram crer… neste momento o jovem ultrapassa a fronteira do “ilegal”. Percebe que a relação entre “mau” e “ilegal” é mera propaganda (ou ignorância dos seus pais). Fica convicto que tudo o que lhe disseram sobre drogas é mentira.

A forma como a sociedade em geral coloca a cannabis no mesmo grupo das drogas pesadas – heroína e cocaína – faz com que estes jovens não hesitem em passar de uma para outra, por ignorância, pela desinformação que lhes foi dada, porque “ilegal” já não significa “mau” e porque afinal os seus pais é que não percebem nada…

Ultrapassada a fronteira do “ilegal”, o jovem enfrenta uma  crise de valores, levando-o muitas vezes para outras atividades ilegais sem qualquer relação direta com as drogas.

A simples criminalização da cannabis transforma-a numa porta de entrada para as drogas pesadas e para o crime.

 

E Agora?

Não consumo nem recomendo o consumo de qualquer tipo de droga: álcool, tabaco, cannabis, muito menos drogas pesadas. São simplesmente formas de nos afastar-mos da nossa essência. Não precisamos de nada disso para a nossa felicidade, para explorar este maravilhoso planeta e para conhecermos a fundo o universo interno da nossa consciência.

Quase tudo o que consumimos tem factores negativos e positivos. A começar pelo açúcar que está hoje em dia presente em praticamente todos os produtos alimentares… e a terminar na cannabis. É tudo uma questão da relação prejuízo/benefício que cabe a cada um de nós avaliar.

Este artigo pretende colocar o assunto da cannabis num lugar mais justo. A desinformação que existe é muita e as imposições legais são na realidade apenas mais um factor. O senso comum acredita que as leis em vigor são feitas exclusivamente para seu benefício, quando é evidente que o interesse do indivíduo está muito abaixo na cadeia de prioridades das entidades legisladoras.

Em última análise, consumir ou não cannabis é uma decisão de consciência pessoal. Dependendo dos “preconceitos” e da visão que cada um de nós tem da vida, a proibição legal, a relação com os amigos, família e a sociedade pode ser tão ou mais importante que a realidade científica.

Se o seu filho, filha ou conhecido experimentou cannabis, não o criminalize! Não lhe passe a ideia de que já está do lado de lá… concentre-se antes em fazer-lhe ver que as drogas não são todas iguais – que algumas são mesmo más – e que na realidade não precisa de nenhuma delas para a sua felicidade.

Se a cannabis é prejudicial para a saúde? Sim, concerteza que é. E concerteza que já destruiu muitas vidas. Do ponto de vista da saúde humana e do impacto social é quase tão prejudicial como o tabaco e o álcool.

 

Referências:
[1] – http://pt.wikipedia.org/wiki/Cannabis_(psicotrópico)
[2] – http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Lancet
[3] – http://www.publico.pt/
[4] – http://pt.wikipedia.org/wiki/Droga_psicoativa
[5] – http://pt.wikipedia.org/wiki/Tetraidrocanabinol
[6] – http://en.wikipedia.org/wiki/Drug_policy_of_Colorado

 

2 Comentários

  • Ana Soares diz:

    Todos nós deveríamos à partida fazer escolhas com base nas consequências e sempre com sentido construtivo. Só desta forma acho que se poderia considerar utilizar livremente a “canabís” (ou outra) de forma consciente, pontualmente num processo criativo ou como “ancora” para ajudar na tomada de decisões importantes e decisivas. A grande questão é que para isso os seus utilizadores deveriam ter um poderoso equilíbrio, auto- conhecimento e auto-disciplina, viveríamos numa sociedade perfeita. Infelizmente não é assim . Infelizmente até a proibição das drogas será uma forma de “Manipular” enfraquecer e travar a evolução dos homens , precisamente pelo mesmo principio “do fruto proibido” : sociedades mais fracas , tornam o “Poder” mais poderoso… Por isso a proibição é também ela uma faca de dois gumes!

  • Vítor Hugo diz:

    Muito bom. parabéns
    O tabaco, o alcool e os medicamentos, e as drogas também são estupefacientes, controladas pelos militares, politicos e poderosos.

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