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Hipnose?
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Hipnose?

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O estado de hipnose é um estado alterado de consciência – por alguns autores é considerado um estado de consciência expandida ou ampliada. Um estado em que o sujeito permanece acordado, experimentando sensações, sentimentos. Podendo mesmo percepcionar (em alguns casos) imagens, regressões, ou experimentar sensações de forma mais concentrada ou imaginada, bem como anestesia, analgesia e outros fenómenos.

O sujeito fica mais interno, mais focado, eventualmente mais acordado. Relativizando ou desligando-se de percepções externas, sem perder o seu estado de alerta.

As suas ondas cerebrais alteram-se de Beta (maior intensidade, menor amplitude) para Alfa (menor intensidade, maior amplitude). Entrando num estado que pode ser designado de Transe (Estado constante/linear, ou oscilante, de elevada concentração/atenção ao qual poderá estar associado, ou não, o relaxamento físico e mental).

Neste estado, de forma espontânea ou proposta, vários fenomenos poderão ocorrer, e especialmente um que potencia o campo terapêutico: a sugestibilidade. Entendendo-se, de uma forma mais rica, a sugestibilidade como um estado de livre fluxo de imaginação activa ou de rememoração mais intensa.

Observando-se assim, como “sugestionável”, não um indivíduo de fraca vontade mas sim alguém que se permite aceitar e envolver-se no exercício que lhe é proposto. Imaginando ou relembrando, ao encontro de um objectivo terapêutico…

 

HIPNOSE CLÍNICA, HIPNOTERAPIA (ou HIPNO-PSICOTERAPIA?)

A hipnose pode ser utilizada como parte de um acto clínico (p.ex.: anestesia) ou como um conjunto de práticas que usam a indução de um estado de hipnose para aplicação de técnicas terapêuticas. Outros termos como hipnologia e hipniatria são igualmente utilizados associados ao contexto terapêutico.

Quando a hipnose é usada em conjugação com abordagens psicoterapêuticas convencionais é também utilizada a expressão hipno-psicoterapia. Sendo a expressão hipnotismo mais frequentemente associada a contextos não terapêuticos (ex.: hipnose de palco).

Não se pode dizer que exista um “modelo” de hipnoterapia. Para alguns investigadores da área da psicologia clínica será mesmo falacioso o emprego do termo hipnoterapia. Alguns, que reconhecem o uso da hipnose como ferramenta terapêutica, usam o termo hipno-psicoterapia.

Na verdade, em psicoterapia, a hipnose pode ser usada de muitas formas auxiliando as pessoas que a procuram a trabalhar em vários eixos:

– Crenças/convicções – auxilia na identificação de crenças limitantes e proporciona um quadro imagético de reprogramação (hipnodrama)

– Condicionamentos – identifica de traumas e reflexos condicionados para estabilização e descondicionamento (ex.: ataques de pânico)

– Competências – identifica défices de competências (emocionais ou comportamentais) e potencia a aprendizagem e treino de novas competências (comunicacionais, mentais, comportamentais, etc.)

– Comportamentos – identifica comportamentos ou estratégias disfuncionais e auxilia a  activação de novas dinâmicas comportamentais

Num vasto campo psicoterapêutico, a hipnose abordagem facilta o trabalho terapêutico a nível da estabilização e da sugestão – vertente analítica (passado) e vertente comportamental (presente e futuro).

 

HISTÓRIA

Desde o séc.XXX a.C. que se conhecem práticas sacerdotais dos antigos egípcios que induziam estados hipnóticos.

No séc.XVIII a.C., na China usavam-se transes hipnóticos para comunicar com os antepassados enquanto na mitologia grega Ascléspios, filho de Apolo, induzia um sono especial de cura. No séc.XI, Avicena, médico persa (antiga Assíria), curava as pessoas através da imaginação.

Desde há mais de 3000 anos, até aos dias de hoje, em toda a Ásia, práticas meditativas, filosóficas ou espirituais (hinduísmo, taoismo, budismo…) propõem estados modificados de consciência para a iluminação ou cura. Enquanto na europa ocidental, o peso da inquisição, durante mais de cinco séculos, foi afastando qualquer prática contemplativa ou meditativa de carácter terapêutico – que saísse do âmbito da religiosidade católica.

Abade Faria

José Custódio de Faria, nasce em Goa em 1746. Religioso e cientista luso-goês que se destacou como um dos primeiros estudiosos da hipnose. Conhece Armand de Chastenet, marquês de Puységur e discípulo de Mesmer. Este teve uma influência decisiva nas ideias do Abade Faria, que lhe reconheceu, nos sábios conselhos e benevolentes instruções, o germe das suas meditações e da perseverança dos seus esforços. Para o Abade Faria, o sono hipnótico não é devido à intervenção de quaisquer fluídos ou poderes especiais dos operadores mas, simplesmente, à susceptibilidade dos indivíduos sobre os quais intervêm. Ele defendia que neste tipo de fenómenos tudo dependia de causas naturais, sem intervenção de quaisquer forças misteriosas, fluídos sobrenaturais ou realidades metapsíquicas. Contra as teorias fluídicas de Mesmer e Puységur, Faria escreve: “não posso conceber como a espécie humana foi buscar a causa deste fenómeno a uma celha ou panela (baquet), a uma vontade externa, a um fluído magnético, a um calor humano, a mil outras extravagâncias deste género, quando esta espécie de sono é comum à natureza humana, através dos sonhos, e a todos os indivíduos que se levantam, andam ou falam durante o sono”.

Para alguns autores e investigadores da hipnose, incluindo o ilustre professor Egas Moniz, Faria terá sido o verdadeiro precursor da hipnose moderna. O que traz uma “portugalidade” interessante a toda a história da hipnose e à ponte entre civilizações de que o próprio Faria terá sido agente activo.

Assim, poderemos ver a hipnose como a ocidentalização de técnicas meditativas milenares ou como um reencontro com uma espiritualidade natural do ser humano – neste âmbito europeu/ocidental. …

 

PERGUNTAS FREQUENTES

Todas as pessoas conseguem ser hipnotizadas?
Em princípio, se não existir qualquer perturbação psíquica ou deficiência cognitiva, qualquer pessoa é capaz de relaxar física e mentalmente, podendo ser convidada a visualizar e a entrar num estado mais profundo de relaxamento.
E todas PODEM ser hipnotizadas?
Desde que o operador/terapeuta siga alguns procedimentos de segurança em função do estado emocional da pessoa que se dispõe à experiência, todos os indivíduos poderão ser hipnotizados. Por vezes, inicialmente com propostas mais simples de focagem, de atenção e/ou de relaxamento, para gradualmente se poderem ir propondo exercícios mais complexos. Será tão seguro como fazer meditação guiada ou uma oração em grupo. Deverá também o operador ou terapeuta ter em conta alguma eventual medicação que o sujeito possa estar a tomar, bem como o estado geral de saúde física do mesmo.
Aquilo que vou sentir é aquilo que costumo ver na televisão ou na internet?
Muito provavelmente isso não acontecerá. A maior parte dos exercícios é feita num estado de transe leve, em que a pessoa apenas fecha os olhos, relaxa e visualiza. À medida que se vai sentindo mais confortável com a técnica e com o operador/terapeuta, a experiência de transe tende a ser mais profunda e por vezes esse “desligar” ocorre. Mas esse será apenas indício de um mais profundo estado de relaxamento. O que se “visiona” na TV é por vezes apenas uma parte do processo e com uma grande predisposição do sujeito para que elas ocorram. Não se observando muitas vezes as dinâmicas de pré-condicionamento instaladas. Quanto aos videos publicados na internet, de uma forma geral desinformam e fascinam mais do que propriamente descrevem aquilo que acontece numa sessão real.
Irei fazer alguma coisa contra a minha vontade? Direi algo que não quero dizer?
Apesar de se encontrar num estado de relaxamento, cada pessoa tem um sistema de crenças e convicções que funciona como um filtro protector para que qualquer sugestão que lhe seja feita, contrariando o seu sistema, equilíbrio ou bem-estar, tenda a ser rejeitada e assim ficar mais alerta.
Penso que tenho alguma dificuldade em concentrar-me. Será que posso ser hipnotizado/a? Não sei se consigo relaxar...
Existem várias técnicas que poderão ser usadas para convidar e focar a sua atenção. Muitas delas mesmo sem existir relaxamento físico, podendo a pessoa estar sentada numa normal cadeira e visualizar. Certamente, haverá uma mais aplicável às suas características. Todos o conseguimos fazer.
O facto de eu ser hipnotizável ou sugestionável é indício de que sou uma pessoa de fraca vontade?
Antes pelo contrário, quanto mais seguro de si se sentir melhor funcionará todo o processo. A hipnose não é um jogo de vontades ou de dominação, enquanto operador a pessoa aceita-me como seu co-piloto numa série de exercícios. Você estará sempre ao volante e em controlo.
E aquelas coisas que eu vejo às vezes na televisão, em que o hipnotizador toca na testa, ou no ombro, da pessoa e ela fica em transe?
Muitas vezes aquilo que vemos na televisão é apenas a parte editada de um processo mais vasto. Antes disso as pessoas são normalmente preparadas ou instaladas sugestões pós-hipnóticas para facilitar essas técnicas. No caso da hipnose de palco, os hipnotistas de palco fazem testes de triagem à audiência, seleccionando com esses testes os indivíduos que por uma ou outra razão estão, naquele momento, mais sugestionáveis. Uma vez feita essa filtragem, e tendo em conta o facto de esses voluntários serem o centro das atenções, fenómenos de elevada sugestionabilidade podem ocorrer. Em sessões terapêuticas, algumas dessas técnicas de indução rápida poderão também ser usadas, mas nunca numa primeira sessão e só com o conhecimento/concordância da pessoa.
Já fiz meditação, reiki e algumas aulas de yoga. Há alguma semelhança?
Os estados de focagem de atenção e de relaxamento poderão ser muito semelhantes. A diferença é, acima de tudo, na filosofia do exercício e na “personalização” que o operador ou terapeuta é capaz de intoduzir no mesmo exercício. Uma vez que poderá haver partilha verbal durante o exercício para além de uma atenção permanente à linguagem corporal e de um respeito pelas crenças e criatividade da pessoa.
Acho que não consigo ver nada quando fecho os olhos. Quando os fecho, está tudo escuro...??
Você não precisa ver para imaginar. Existem pessoas que poderão ser consideradas mais “visuais”, que colocam facilmente imagens na sua mente. Outras mais cinestésicas, que imaginam através de outros sentidos (olfacto, tacto, audição…) e outras ainda que se permitem ir partilhando ou responder a perguntas de certa forma, sem que haja um prévio pensamento mas sim apenas uma sensação. A sua imaginação poderá funcionar de muitas formas e dimensões.
Durante a sessão poderei mexer-me?
Não só poderá, como deverá mexer-se sempre que tenha necessidade. O seu conforto é fundamental, é por isso bom que zele por ele. Ajustando-se na cadeira ou sofá até encontrar a melhor posição, coçando o nariz, espirrando ou tossindo, se necessário. É importante não reprimir nada. Para algumas pessoas mais sensíveis a nível intestinal, muitas vezes por motivos de ansiedade, essa possibilidade de interrupção deve ser reforçada. As pessoas interrompem o exercício sempre que quiserem ou precisarem. O convite à partilha do que vai sendo sentido é permanente e a verbalização do sujeito é reforçada. Não deverá ser a pessoa a forçar uma adaptação ao operador, mas sim o operador a adaptar-se à pessoa.
Há o perigo de não acordar?
Esse é um mito literário, propagandeado por alguma desinformação. Não existe esse risco, mesmo que você adormeça em algumas partes do exercício, você irá continuar a sentir a voz do operador que, de uma forma atenta, irá acompanhando o seu estado de relaxamento até ao final do exercício. Eventualmente, em função da profundidade e duração do exercício, o fim poderá ser mais ou menos energizante ou dinâmico para que a atenção seja novamente focada no momento presente e nas sensações normais de um estado de alerta.
As mudanças de comportamento que são feitas com recurso à hipnose não são limitadas no tempo?
Dependendo do tipo de situação, algumas dessas mudanças terão de ser consolidadas ou reforçadas para se automatizarem e se tornarem inconscientes. Não sendo no entanto necessário o recurso a um hipnoterapeuta, uma vez que a pessoa o poderá fazer através da auto-hipnose, da auto-sugestão e da instalação e prática de novas rotinas – aquilo que chamo um “ciclo virtuoso”.
Quando terminar a sessão posso desempenhar as minhas tarefas habituais: ir trabalhar, guiar um carro, etc...?
Sairá da sessão como quem acorda de uma sesta tranquila, pelo que poderá sentir alguma letargia ou sonolência residual que se vai dissipando. Poderá fazer tudo o que se propõe fazer eventualmente até com mais energia, depois de caminhar um pouco, apanhar um pouco de ar ou de luz.
Deverei preparar-me de forma especial para a sessão?
Deverá trazer consigo apenas vontade de mudar e alguma abertura para experimentar, aprender e adaptar as técnicas que lhe irão ser propostas, para o seu dia-a-dia. Fisicamente, venha com uma roupa confortável evitando cintos, gravatas, sapatos apertados, etc.. Evite o consumo de estimulantes como a cafeína e o álcool. Se estiver fisicamente menos bem com uma constipação ou algum outro mal-estar físico temporário, talvez seja preferível reagendar a sua sessão. Será também importante que, caso o assunto que queira abordar, tenha uma dimensão física (dor, mal-estar, alterações de humor, falta de energia, dificuldades de mobilidade, perturbações de carácter sexual, etc…) tenha feito o despiste físico previamente com o seu médico. Pessoalmente, não trabalharei com alguém que não o tenha feito e poderei mesmo solicitar autorização escrita do médico que o/a acompanha.

  *a pedido do autor este texto não segue as normas do acordo ortográfico

Caso pretenda pode ter acesso ao artigo em PDF. Faça Download aqui.

 

 

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