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Suíça, o paraíso para as tabaqueiras
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Suíça, o paraíso para as tabaqueiras

Como a Suíça coopera com a indústria tabagista
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Página Inicial Saúde Suíça, o paraíso para as tabaqueiras

 

Mas o que tem a Suíça a ver com o tabaco?

Sabia que?

 

A Philip Morris International(PMI), a British American Tobacco (BAT) e a Japan Tobacco International (JTI), três das quatro maiores multinacionais do tabaco estão presentes diretamente na Suíça para atividade de produção, pesquisa e gestão?

Que a Suíça tem um regime fiscal vantajoso e um quadro regulamentar liberal muito apreciado pelos fabricantes de cigarros?

Que o Parlamento Suíço aprovou que estas multinacionais continuassem a exportar para a Ásia e Médio Oriente, cigarros contendo mais de 10 mg de alcatrão, 1 mg de nicotina e 10 mg de monóxido de carbono? E que estes produtos não estão em conformidade com as regras da União Europeia?

Que a Suíça é o único país europeu, juntamente com Andorra e Mónaco, que ainda não ratificou a Convenção Quadro para o Controlo do Tabaco da Organização Mundial de Saúde (OMS)?

Surpreendido? Então leia o artigo até ao fim.

 

Perante a queda das vendas de cigarros tradicionais, a indústria do tabaco lançou-se com tudo na batalha dos chamados produtos de “poucos riscos”.

Com forte presença na Suíça, o setor recebe um apoio significativo da classe política do país. Mas isso só não deve conter o fim anunciado pelos especialistas.

Dois biliões de dólares, foi o montante investido pela Philip Morris (PMI) para desenvolver e testar o seu novo tipo de cigarro. Batizado de “iQos”, este aparelhinho elétrico supostamente destinado a evitar os efeitos nefastos da combustão do tabaco, será comercializado progressivamente no final do ano. A empresa espera vender nada menos do que 30 biliões de unidades até 2016 e gerar ganhos anuais de cerca de 700 milhões de dólares.

“A indústria está no início de um processo de transformação. Nós antecipámos esse processo quando começámos a trabalhar há 10 anos no desenvolvimento de produtos que podem reduzir potencialmente os riscos”, disse Iro Antoniadou, porta-voz da PMI. Mas o produtor do famoso Marlboro não está sozinho na corrida. Todos os atores da indústria estão à procura de uma fórmula milagrosa – cigarro eletrónico, produtos de tabaco que aquecem, inaladores de nicotina ou vaporizadores de tabaco – numa tentativa de contornar as novas leis que constrangem o cigarro tradicional.

Após a onda de fusões e aquisições nos anos 1990 e 2000
o mercado internacional de cigarros ficou dominado por quatro empresas multinacionais: Philip Morris International (PMI), British American Tobacco (BAT), Japan Tobacco International (JTI ) e Imperial Tobacco. A China National Tobacco Corporation, que detém o monopólio da venda de tabaco na China, continua a ser o maior produtor de cigarros do mundo.

Os 10 maiores fabricantes de cigarros em 2014

Ranking_fabricantes tabaco

Vendas líquidas, em biliões de dólares

 

“Eles estão desesperados em evitar o mesmo destino da Kodak, que desapareceu depois de ter falhado na transição da fotografia analógica para a fotografia digital. Para isso, eles não têm outra escolha senão tentar novas tecnologias”, diz Jean-François Etter, professor de saúde mundial da Universidade de Genebra e editor do site para parar de fumar.

A líder mundial do tabaco Philip Morris International (Marlboro, Chesterfield, Muratti, entre outras marcas)
detém mais de 28% do mercado internacional de cigarros, excluindo a China. A empresa emprega cerca de 3000 pessoas na Suíça. O seu centro operacional mundial fica em Lausanne e a empresa tem um importante centro de produção e pesquisa em Neuchâtel. Cerca de 1500 pessoas trabalham atualmente no local, que produziu 24 biliões de cigarros em 2012. Mais de 80% da produção suíça é para exportação.

As perspectivas são sombrias para a indústria tabagista: com exceção da China, o volume de venda de cigarros no mundo sofreu uma queda de 4% em 2013, seguindo a tendência observada desde 2010, segundo a firma de pesquisa económica Euromonitor. Para 2014, a Philip Morris espera uma queda de 2 a 3% em todo o mundo. Na Europa, a queda deve ser maior e alcançar cerca de 5% nos próximos três anos. As empresas viram-se para a Ásia e África onde o consumo continua a crescer e onde podem encontrar regulamentação fraca, apoio político, população crescente e aumento de rendimento. A população jovem é o target principal.

Alguns especialistas acreditam que esta indústria está condenada a desaparecer. “A fase de declínio começou. O Citigroup previu sua morte para 2045. Há 50 anos que as multinacionais desenvolvem produtos híbridos, sem resultados. O coração do negócio continua a ser o cigarro tradicional”, ressalva Pascal Diethelm, presidente da associação contra o tabagismo OxyRomandie.

Os fabricantes, obviamente, não partilham desta opinião: “O declínio da indústria do tabaco tem sido anunciado desde há anos. Além da recente crise económica, não vemos qualquer razão para alarme. A população mundial continua aumentando e há sempre espaço para um crescimento sólido”, diz Guy Côté, porta-voz da Japan American Tobacco, em Genebra. As multinacionais estão de olho especialmente na África e na sua população que não para de crescer, assim como na Ásia, onde os jovens procuram seguir as formas de vida ocidental, diz Jean-François Etter.

O segundo maior grupo fabricante de cigarros do mundo, a British American Tobacco (Pall Mall, Dunhill, Lucky Strike)
comemorou em 2013 o bicentenário da presença da indústria do tabaco em Boncourt, no cantão de Jura (oeste). Atualmente, o grupo emprega mais de 500 pessoas na Suíça, incluindo 320 no Jura. A fábrica produz cerca de 10 biliões de cigarros por ano, dos quais quase 70% são exportados. A sede da empresa está localizada em Londres. Através de sua subsidiária Nicoventures, o grupo lançou um cigarro eletrónico, o VYPE, no mercado do Reino Unido em setembro de 2013.

Ilha Suíça

Para continuar exibindo uma rentabilidade máxima – o The Guardian estima em 35 biliões de dólares os lucros anuais das seis maiores multinacionais do tabaco – e para distribuir dividendos aos seus acionistas, a indústria não tem ainda outra escolha senão aumentar o preço do cigarro. “Mas essa estratégia não é sustentável, um dia ou outro, os fabricantes sofrerão uma queda nos volumes e na rentabilidade. Nessa hora, os mercados financeiros vão abandonar o setor”, prevê Pascal Diethelm.

Uma hipótese que tem assustado os políticos de vários cantões suíços. A ilha suíça, com o seu regime fiscal vantajoso e o seu quadro regulamentar liberal, é muito apreciada pelos fabricantes de cigarros: os três maiores deles, PMI, British American Tobacco e Japan Tobacco International, estão instalados no país para atividades de produção, pesquisa e gestão.

A primeira é de grande importância para a economia de algumas regiões. Para o cantão de Neuchâtel (oeste), a produção de cigarros significa cerca de 700 milhões de francos de investimento desde 2008, 3 mil postos de trabalho altamente remunerados, uma receita fiscal de mais de 60 milhões de francos, quase metade do total do imposto de renda das empresas.

O terceiro maior fabricante, a Japan Tobacco International (Camel, Winston, Mild Seven)
detém 11% do mercado mundial de cigarros. Emprega cerca de 1000 pessoas em Genebra na sua sede internacional e 300 na sua fábrica em Dagmersellen, no cantão de Lucerna (centro). Cerca de 90% da produção suíça é exportada. Em 2013, a empresa lançou o seu cigarro eletrónico Ploom, que gera vapor pelo aquecimento do tabaco, antes de formalizar, em meados de junho de 2014, a aquisição da Zandera, que produz a marca de cigarro eletrónico E-lites.

5000 empregos em jogo… não importa a saúde de milhões

Para mantê-las no país, essas multinacionais recebem uma atenção especial. Em 2012, por exemplo, o deputado federal Laurent Favre, de Neuchâtel, conseguiu aprovar no Parlamento que a Suíça continuasse exportando para a Ásia e o Oriente Médio cigarros contendo mais de 10 mg de alcatrão, 1 mg de nicotina e 10 mg de monóxido de carbono.

A questão em jogo é importante, estes cigarros “fortes” representam mais de 80% da produção suíça. Se as exportações do produto fossem proibidas, os fabricantes ameaçavam deslocalizar a produção do país, o que significaria a perda de 5 mil empregos diretos e dezenas de milhões de receitas fiscais.

Pouco importa se esses produtos não estejam em conformidade com as regras da União Europeia, com a qual a Suíça está negociando um acordo sobre a saúde pública.

 

“Moralmente indefensável”

O senador Raphael Comte, também de Neuchâtel, não tem problemas para justificar esta decisão: “A União Europeia não tem que ditar o que podemos ou não exportar para países terceiros. Se a Philip Morris não produzir os seus cigarros na Suíça, será noutro país. Pessoalmente, eu prefiro manter essa produção e essa mão-de-obra qualificada aqui”.

Pascal Diethelm é muito crítico em relação à classe política suíça, lembrando que a Suíça é o único país europeu, juntamente com Andorra e Mónaco, que ainda não ratificou a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da OMS. “Isso é moralmente indefensável. Todos os países se mostram solidários contra este flagelo que mata a cada ano 6 milhões de pessoas e é considerado a principal causa de doenças não transmissíveis em todo o mundo. A Suíça não só não participa dessa luta, como também aproveita para sair lucrando”, disse.

Deputados lobistas

Em 2013, Raphael Comte entrou com uma ação parlamentar exigindo que os produtos rotulados como “baixo risco” fossem sujeitos a regulamentos especiais nesta nova lei sobre o tabaco. Quando questionado se ele não poderia ser visto como um porta-voz da Philip Morris, o senador respondeu: “Não, eu guardo completamente a minha independência. As questões de saúde pública pesam na balança, basta ver a lei restritiva sobre fumo passivo aprovada pelo Parlamento. Mas é melhor saber antes de votar quais são as implicações para a indústria. É por isso que mantemos um contato regular com essa empresa”.

Pascal Diethelm fala de um fenómeno tipicamente suíço: “Uma vez que as decisões políticas são altamente descentralizadas, o poder de influência das multinacionais ao nível regional é enorme. É muito difícil para as autoridades resistir a um contribuinte e empregador tão importante. A indústria do tabaco não precisa de lobistas, são os próprios políticos que desempenham esse papel”.

Assim, ficamos a saber que a Suíça não são só chocolates, relógios e canivetes, também estão na indústria da morte ou como alguns preferem chamar, do prazer.

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